APONTAMENTOS HISTÓRICOS SOBRE O SERVIÇO DE UROLOGIA DOS HUC
O fundador da Urologia Coimbrã e nacional - Prof. Doutor Ângelo da Fonseca (1908-1942)

O Prof. Doutor Ângelo da Fonseca foi um dos sócios fundadores da Associação Portuguesa de Urologia (APU) tendo sido seu Presidente de 1930-1932. Dedicou particular atenção à actividade científica como o demonstra o empenho com que participou activamente na organização dos Congressos Hispano-Portuguezes de Urologia, o primeiro em Lisboa em 1926, onde apresentou uma memória sobre “O choque dos prostatectomizados”, o segundo em Madrid, em 1929, onde apresentou os trabalhos “Sindroma intestinal de causa urológica” e “A nefrectomia nas pionefroses”, e o terceiro em Coimbra, em 1932, onde se destacou pelo notável relatório que apresentou sobre a “Patologia do colo vesical”, considerado o primeiro trabalho de conjunto que sobre o assunto se publicou no mundo e que por isso foi elogiadíssimo. Neste congresso já surge o nome do Doutor Morais Zamith que apresentou o trabalho “O Perigo da Prostatectomia” baseado num estudo que incluiu 120 doentes por si operados.
As qualidades de cirurgião do Doutor Ângelo da Fonseca foram enaltecidas pelo seu discípulo Morais Zamith: “Recordo a sua técnica elegante e impecável, sobretudo na nefrectomia e na prostatectomia, que realizava com rapidez e perfeição.”
Prof. Doutor Luis Morais Zamith (1942-1967)

Após o falecimento, em Outubro de 1942, do Prof. Doutor Ângelo da Fonseca seguiu-se na direcção da Urologia coimbrã o seu discípulo Luis Augusto de Morais Zamith, logo nomeado, pela Direcção dos Hospitais, Director da Clínica Urológica e das respectivas consultas externas.
O Dr. Zamith começou a interessar-se pela Urologia logo após a licenciatura no inicio da década de 20, frequentando como voluntário a respectiva Enfermaria. Refira-se que à época os Hospitais (a maioria das Misericórdias) funcionavam com médicos voluntários (as carreiras médicas só surgiram em finais da década de 70) que não tinham qualquer remuneração. No caso especial dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) dada a sua ligação e dependência da Faculdade de Medicina os Mestres, Professores da Faculdade, eram remunerados pelas suas funções universitárias. Posteriormente passaram também a ser remunerados outros médicos “funcionários” da Faculdade: assistentes, chefes de serviço e técnicos. Estes lugares em número muito reduzido eram ocupados por licenciados convidados pelos Mestres, professores das respectivas cadeiras, sem qualquer concurso, estando pois o seu preenchimento dependente da vontade e simpatia discricionária do respectivo Mestre. Não havia Serviços de acção médica como hoje existem e assim os “Serviços” eram designados por “Enfermaria” e mais tarde nos HUC pela sua ligação e dependência da Universidade, os hospitais universitários eram verdadeiras extensões das Faculdades de Medicina, passaram a ser designados por “Clínicas Universitárias”. Assim nasceu a “Clínica Universitária de Urologia”. O Dr. Luis Augusto de Morais Zamith fez o seu doutoramento profissional em Novembro de 1920, apresentando uma dissertação “Sobre um novo tratamento mercurial da sífilis” sendo aprovado com a classificação final de M.B. com 19 valores. Foi nomeado 1º Assistente em 1928 e Professor Extraordinário em 1943. O seu interesse e entusiasmo pela Urologia cedo se evidenciou pelo conjunto de trabalhos que foi publicando nos Arquivos de Clínica Cirúrgica e outros apresentados em Congressos de que merecem detaque: “Um caso de fístula vésico-umbilical” (1928), “Quisto hidático do rim simulando tuberculose” (1928), “Dois casos de ruptura traumática da bexiga sem lesão óssea” (1928), “Exostrofia da bexiga” (1931), Apertos da uretra” (1931), “O peridgo da prostatectomia” (III Congresso Hispano-Potuguês de Urologia, 1932), “A pielografia e as suas aplicações clínicas” (IV Congresso Hispano-Português de Urologia, Cádiz, 1935), “Contribuição para o estudo da doença do colo vesical” (1942), “Estado actual do tratamento cirúrgico da hipertrofia prostática” (Relatórioa apresentado ao 1º Congresso Português de Urologia em 1945), “A minha técnica actual da adenomectomia prostática supra-púbica” (Apresentação ao VII Congresso da Sociedade de Urologia do Mediterrâneo Latino, Sevilha, 1956),“A exploração rádio-isotópica do aparelho urinário” (Relatório apresentado ao Congresso Hispano-Português de 1965). Merece, igualmente, uma referência especial a publicação em 1959 do livro de texto “Urologia”, um volume de 700 páginas com 214 figuras originais destinado a estudantes e a médicos policlínicos.
Durante os quarenta anos em que a Urologia coimbrã esteve sob a sua responsabilidade teve diversos discípulos que na ausência de carreiras médicas hospitalares adquiriram o título de especialistas através da Ordem dos Mèdicos após internato na Urologia dos HUC. Destes recordam-se para que conste: Abilio de Moura, Ângelo Américo da Mota, António Pericão, Leonidio Monteiro, Silvestre Madeira, Pessoa Lopes. Destes o que trabalhou mais tempo com o Prof. Morais Zamith, foi o Dr. Ângelo Mota que o acompanhou desde 1943 até à sua jubilação em 1967.
Prof. Doutor Alexandre José Linhares Furtado (1967-2003)

O Prof. Linhares Furtado (LF) quando assumiu a Direcção do Serviço de Urologia em 1967, já era um notável cirurgião geral da escola do Prof. Bártholo do Vale Pereira, com o doutoramento académico já realizado em 1965 com a dissertação “Regeneração hepática experimental – alguns aspectos cirúrgicos”. Convidado pela sua Faculdade de Medicina a assumir as funções de Professor de Urologia e Director do respectivo Serviço, parte para Inglaterra onde frequenta os principais centros urológicos, com o objectivo de se familiarizar com as mais modernas técnicas da Urologia. Regressado a Coimbra e aos seus Hospitais revoluciona a urologia coimbrã e nacional introduzindo na prática clínica as mais recentes novidades no diagnóstico e tratamento da patologia urológica.
Cistectomias radicais com derivações ou substituições vesicais
Cirurgia da Hipertensão vasculo-renal
Tumores em rim único com autotransplante
Tumores renais com invasão da veia cava e plastia com próteses vasculares
Grandes linfadenectomias retroperitoniais em tumores do testículo
Cirurgia da suprarenal
Prostatectomia radical
Cirurgia de acessos vasculares para hemodiálise
Transplantes renais: de dador vivo em 1969 e dador cadáver em 1980
Transplantes Reno-pancreáticos em 1993
Um dos projectos mais ambiciosos que LF trouxe de Inglaterra foi a realização de transplantes renais, um dos avanços mais significativos da medicina contemporânea, que ainda não tinha chegado a Portugal. Para a sua concretização montou uma pequena Unidade de Diálise no Serviço de Urologia, desenvolveu uma parceria com o Serviço de Nefrologia do Prof. Traeger de Lyon, França, para a realização dos estudos de histocompatibilidade e, na ausência de legislação nacional sobre o assunto, muniu-se de pareceres de doutos professores de Direito defendendo a legalidade do acto principalmente da colheita de rim em dador vivo para o transplante. Tudo preparado realizou-se, assim, no dia 20 de Julho de 1969, o 1º transplante renal no nosso país, neste caso de dador vivo, de irmã para irmão. O sucesso cirúrgico foi imediato com o enxerto renal a funcionar, mas infelizmente ao fim de 1 mês, uma infecção na nádega surgida após a administração de uma ampola de soro antilinfocitário preparado em Lyon, provavelmente deteriorada, obrigou à suspensão da imunossupressão e à consequente perda do rim!
Em 1980 LF foi também pioneiro no nosso país dos transplantes renais de cadáver, realizando a primeira colheita e o primeiro transplante de rim de cadáver.
A transplantação de órgãos abdominais continuou a merecer atenção de LF que também foi o pioneiro dos transplantes hepáticos, do transplante hepático sequencial (“em dominó”), do transplante reno-pancreático e do transplante intestinal. Sem dúvida que nesta difícil área da medicina moderna LF deixou uma marca pioneira e única a par de uma escola com dignos continuadores.
A par desta riquíssima e inovadora actividade cirúrgica destacou-se também por uma actividade académica, universitária e científica brilhante, cujo mérito ultrapassou as nossas fronteiras. Foi condecorado (Grande Oficial da Ordem do Infante) e recebeu os maiores prémios e distinções oficiais incluindo o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade dos Açores.
Formou dezenas de especialista de Urologia e criou as condições para que dois dos seus principais colaboradores fizessem o seu doutoramento académico:
Alfredo Mota com a tese “Factores de Prognóstico Transplantação Renal. Análise Multifactorial em 800 Transplantes Renais de Cadáver”.
Arnaldo Figueiredo com a tese “Transplante de Bexiga”.
Prof. Doutor Alfredo José Fânzeres da Mota (2003- ... )

Iniciou-se na Urologia em 1993 ainda como Interno de Policlinica quando foi convidado pelo Prof. Bártolo do Vale Pereira, professor da cadeira em substituição do Prof. Furtado a cumprir serviço militar em Moçambique, para ser Monitor da Clinica Urológica. Passou assim, a dar aulas práticas de urologia e a frequentar o respectivo Serviço. Em 1976 ingressou oficialmente no Internato Complementar de Urologia e no Serviço de Urologia que não mais abandonou. Em 1991 fez concurso para Chefe de Serviço de Urologia tendo sido aprovado com a classificação de 18 valores. Doutorou-se em 2003 sendo “ Aprovado por unanimidade com Distinção e Louvor”. Nesse mesmo ano foi nomeado Professor de Urologia da Faculdade de Medicina da UC e em Setembro desse ano tomou posse do lugar de Director do Serviço de Urologia e Transplantação Renal. Em 2009 fez concurso para Professor Associado de Cirurgia da Faculdade de Medicina tendo sido aprovado por unanimidade. Também em 2009 recebeu o “European Board of Surgery. Honorary Diplom in Transplantation Surgery”.
Sob a sua direcção o Serviço de Urologia e Transplantação Renal dos HUC conquistou a liderança da transplantação renal em Portugal: nos últimos 7 anos o Serviço realizou 1039 transplantes renais o que dá uma média de 148 TR/ano sendo assim um dos principais centros de TR a nível europeu.
É membro do Conselho Nacional de Transplantação organismo de aconselhamento do Ministro da Saúde, desde 1997. Foi presidente de sessões de Comunicações orais e mesas-redondas no 9º e 10º Congressos da ESOT em Oslo e Lisboa e presidente de mesas-redondas dos VI e VII Congressos de Transplantação da Catalunha.
É revisor científico do jornal oficial da ESOT “Transplant International”, membro do Editorial Board da revista internacional “Trends in Transplantation”, Director da Edição Portuguesa do “Current Opinion in Urology e .Director da Edição Portuguesa do “Current Opinion in Organ Transplantation”.
Desde Outubro de 2012 o SUTR dos HUC (agora CHUC) foi certificado pelo European Board of Urology, após auditoria pelos seus membros, como centro de treino e
formação europeu em urologia, sendo, até agora, o único Serviço de Urologia
português a ter obtido esta certificação.
Em 2013 na sequência da criação do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) os Serviços de Urologia dos HUC e do Hospital dos Covões fundiram-se num único Serviço de Urologia de que é Director, que passou a ser o maior do país, com um quadro actual de 18 especialistas e 10 internos da especialidade.
Prof. Doutor Alfredo José Fânzeres da Mota